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Sonhando com Botões

Há alguns meses, tive a oportunidade de fazer uma linda viagem pelo Brasil. Quantas riquezas naturais tem esse país! Visitei lugares e conheci pessoas totalmente diferentes. Entre elas, tive o prazer de conhecer o Raul, um menino muito legal e divertido. Passei vários dias ao lado dele e depois de muitas conversas, percebi que Raul era um menino que não gostava muito de estudar. Ele sempre dizia que já queria nascer sabendo para não precisar ir à escola. Todos os dias, sua mãe tentava lhe explicar como era importante o estudo na vida de uma criança. Ela falava, falava, falava e Raul não conseguia entender o discurso da mãe. Cada vez mais, ele reclamava na hora que tinha que fazer os deveres de casa, trabalhos e redações. Ficava furioso quando sua mãe começava:

- Raul, tá na hora dos deveres. Pegue sua agenda e veja o que a professora pediu para fazer hoje.

- Pôxa, mãe, agora que eu ia começar a jogar botão. Todo dia é a mesma coisa: dever, dever e mais dever. Que chato! Não agüento mais isso. – reclamava o filho.

É ... Raul não gostava de estudar, mas adorava tudo relacionado com esporte. Seu passatempo preferido era jogar futebol de mesa, mais conhecido como botão. Raul tinha vários times: Fluminense, Vasco, Grêmio, São Paulo e muitos outros. Seu pai era especialista em fazer goleiros com caixinhas de fósforo. Quando se juntavam, ficavam horas recortando, colando e soltando a imaginação para formar times cada vez mais bonitos. Sua coleção de botões era realmente admirável.

Diante de tanto fascínio por futebol, quase não sobrava tempo para Raul pensar nos estudos. Mas, como todo menino de oito anos, Raul tinha suas obrigações de aluno e, por isso, precisava descobrir que estudar não era tão chato como ele pensava. Ele precisava entender que quando mais cedo resolvesse suas tarefas escolares, mais tempo sobraria para ele brincar com seus botões, seus bonecos, seus carrinhos ...

Apesar de não gostar de estudar, sua mãe dizia que Raul era um menino muito inteligente. Só faltava a ele organização e disciplina. Fugir de suas obrigações não seria a solução, pois ele precisava se dedicar bem aos estudos para, futuramente, conseguir um bom emprego, viver com um certo conforto e comprar suas coisas, inclusive seus botões. Com certeza, Raul, assim como seu pai, carregará essa paixão por futebol de mesa e gastará algum do seu dinheiro comprando botões de variados tamanhos, times e cores.


 
Os dias passavam e o final de semana se aproximava.
Raul era só alegria.

Aos sábados e domingos, o menino tinha uma pequena folga. Nada de deveres! Nesses dois dias, ele brincava de botão, jogava futebol, assistia ao Campeonato Brasileiro, ia ao clube, à casa dos avós, recebia seus amigos em casa e ... jogava mais botão.


Chega segunda-feira. A história se repete. A mãe chama o Raul para os deveres, ele reclama, ela fica chateada e, mais uma vez, tenta explicar o quanto é importante estudar. Por que será que Raul não gosta de estudar? Será que é por que ele só tem oito anos? Será que quando for rapazinho, ele passará a gostar dos estudos? São tantas perguntas ... A mãe do Raul precisava arranjar uma maneira de aproximar seu filho dos livros escolares. Pensou numa idéia que, de repente, poderia dar certo. Chamou Raul para conversar:

- Raul, sei que você está querendo ganhar mais botões para aumentar a sua coleção. Não é verdade? – disse a mãe.

- É isso mesmo, mãe, mas sei que você não vai comprar. Tenho reclamado muito na hora de fazer meus deveres.

- Você tem toda razão. Fico feliz de perceber que você já está tendo consciência do que está acontecendo e, por isso, vou lhe dar uma chance de ganhar botões novos.


- Obá!!! Quando a gente vai comprar os botões? - perguntou radiante Raul.



- Não, não, não, não. As coisas não são simples assim. Primeiro, você terá que fazer a sua parte. Você terá que estudar, fazer os deveres, redações, ler os livros, fazer tudo sem reclamar.

- Ah não, então já desisto ...

- Calma, ainda não terminei. Você precisa entender que estudar não é nenhum sacrifício, pelo contrário, é um momento super legal que você aprende coisas novas. Quanto mais informações tivermos, mais espertos ficaremos e mais assuntos teremos para conversar com nossos amigos.

- Tudo bem, mãe, mas, onde entram os botões nessa história? – pergunta Raul.

- O que vai acontecer é o seguinte. Se você cumprir com todas as suas obrigações escolares, sem reclamar, ganhará dois botões por dia.

- Ah, mãe, só dois botões? É muito pouco ...

- É isso mesmo. Só dois botões. Você precisa entender que para conquistarmos alguma coisa na vida, precisamos nos esforçar para consegui-la. É isso que estou propondo para você. Estude, faça a sua parte, que você será recompensado hoje e sempre.

No dia seguinte, quando Raul acordou, foi tomar café e viu sua mãe mexendo numa caixa que estava em cima da mesa da sala. Ao se aproximar dela, viu que havia vários botões dentro da caixa. Não preciso dizer que o menino ficou encantado com aquela variedade de botões. Um mais colorido que o outro. Raul virou-se para mãe e disse:

ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZzzzzzz...

A melhor continuação escolhida foi Diego Afonso Morales

- Mãe ... Se você tem tantos botões assim, por que não me dá todos eles agora? Eu prometo que me comporto e faço tudo que a senhora quiser!

- Não senhor! Se quiser ter os seus botões, primeiro vai ter que cumprir seu dever, para depois ter direito ao prazer!

E assim ele foi se esforçando ao máximo para conseguir cumprir seus deveres. Dia passava e dois botões ele ganhava. Algumas vezes, dava uma nova tentadinha:

- Por favor, mãezinha ... Eu juro que faço tudo!

Mas, sua mãe não aceitava.

A cada dia que passava, a caixa ia diminuindo e a coleção de Raul ia aumentando.

Certo dia, todos os botões estavam com Raul.

Sua mãe estava super orgulhosa com suas notas excelentes e até levou Raul na sorveteria. Raul comeu um montão de sorvete, mas, no dia seguinte, ele só pensava em jogar botão. Sua mãe disse:

- Que história é essa meu filho? Assim você não ganha mais botão!

- Que botões, mãe? A caixa já está vazia!

- Andou pegando os botões dela meu filho?

- Não, mãe! Trabalho honesto. Os botões apenas foram acabando! E como você não tem mais nenhum para me dar, então, o acordo acabou e parei de me comportar!

- Então, cada vez que o senhor não se comportar perderá três botões!

Raul ficou com tanto medo que nunca mais deixou de fazer seus deveres ou de ser estudioso.

FIM

Pequenos ilustradores: Raul Pimentel e Rafaela Pimentel