Jazz

Hoje temos aqui conosco uma jovem professora de jazz, a Rafaela Pimentel.

 

A carioca de apenas 19 anos é apaixonada pela dança e conversou comigo sobre as alegrias e dificuldades de aprender a dançar o jazz.  

O amor pelo jazz não veio de berço, mas aconteceu dois anos após ter começado as aulas de dança.

Sua mãe a matriculou numa turma em 2007 para que ela  fizesse uma atividade física, por questões de saúde. Foi a partir de 2009 que Rafaela começou  a ver a dança como um prazer e, desde então, foi passo atrás de passo.

Só que não foi assim tudo tão cor-de-rosa ...




 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Drica - Rafaela, eu sou como você, sou a dançarina da turma do Pequeno Artista e adoro  dançar jazz. É muito bom ter você aqui com a gente no blog, obrigada! 
Quando foi realmente que surgiu a vontade de aprender mais sobre a dança?


Rafaela - Em 2009 eu entrei em uma turma diferente da que eu tinha iniciado.  Nesta turma, todas as alunas eram bem mais velhas do que eu que tinha 11, 12 anos. 
Eu via as meninas fazendo coisas que eu não conseguia fazer e, no final, elas viraram meus primeiros exemplos. Na minha cabeça, haviam me colocado ali por algum propósito, não só pela minha indisponibilidade de horário da época. Foi quando eu descobri que eu era competitiva e não queria ficar para trás. Desde então as minhas metas foram crescendo e sendo alcançadas de pouco a pouco e é assim até hoje.


Drica -  Foi um empurrão para você crescer mais ainda na dança. Rafaela, quais as suas maiores dificuldades quando começou as aulas de jazz?


Rafaela - A flexibilidade no início era uma dificuldade muito grande pra mim. Só que se você for disciplinado, for a todas a aulas, respeitar o seu corpo e fizer tudo conscientemente, é algo que se ganha. Toda a flexibilidade que eu tenho hoje foi conquistada com anos de trabalho e eu ainda quero evoluir quanto a isso, mas a maior dificuldade de todas foi o meu pé.

Bailarinas geralmente tem o arco e o peito do pé muito acentuados e o meu pé sempre foi reto demais, o que, para dança, que preza a estética padrão, não era o pé bonito, ideal de bailarina. Em um dos exercícios de trabalho de fortalecimento de meia-ponta, que trabalha justamente essa parte, uma professora diferente da que eu estava costumada, 
olhava pra mim, vinha até mim e falava para eu esticar a ponta do pé, como se eu não estivesse dando o meu melhor. Eu tinha de vontade de dizer para ela que aquilo ali era o meu melhor e era o que eu conseguia, mas a insistência dela me fazia acreditar que eu não estava tentando o suficiente. Aquilo me desmotivava. Cansa você tentar fazer algo com o seu corpo que a sua anatomia não te permite. Você se frustra com isso.

Hoje, depois de anos de trabalho de meia-ponta, houve uma melhora, mas a minha meia-ponta continua sendo a mais baixa da maioria das turmas e eu entendo que é isso que o meu corpo me permite. Ainda é uma dificuldade, mas eu não me cobro tanto porque eu sei que é algo que não vou conseguir mudar bruscamente.

Drica - Nossa Rafaela, eu acho você muito determinada! Este tipo de exercício dói demais! E onde você realmente aprendeu a dançar jazz como uma profissional da dança?

Rafaela - Eu tenho uma professora que até hoje me acompanha desde os meus primeiros anos e eu lembro de aulas fenomenais dela me ensinando o que eu nunca ouvi de ninguém.

Eu aprendo a dançar com todo mundo que me ensina, nem que seja em uma conversa, em sala ou no palco. Eu acho que nunca vai existir o realmente aprender, porque a dança é algo que evolui e os dançarinos evoluem junto com ela, seja em estilos, lugares e pessoas diferentes. Então eu aprendo a dançar jazz em todas as aulas que eu fiz, em todos os vídeos que eu procurei, em todos os exemplos que eu tenho, todos os programas que eu vi. A experiência e a evolução permitem dizer que o aprendizado nunca acaba.

 

Drica - É verdade, Rafaela. Continuamos sempre aprendendo.
Você se acha tímida? Como é chegar ao palco e executar uma coreografia para um teatro lotado?

Rafaela - Sim, eu sou e sempre fui muito tímida e muito séria. Até hoje é uma dificuldade me soltar no palco. É preciso muita expressão corporal para poder fazer outra pessoa sentir o mesmo que você sente com um movimento específico. Ao longo dos anos, em todos os espetáculos, eu fui ganhando uma experiência que me muda e me faz crescer até hoje. 
 

Eu também tinha uma técnica muito boa para não me intimidar nessas ocasiões. Eu sou míope desde 2008 e comecei a ver uma vantagem nisso quando  me apresentei sem os óculos. Eu conseguia enxergar o que estava no palco, o suficiente para eu poder saber os meus lugares durante a coreografia, mas eu não via nada da plateia, porque além da miopia, era tudo escuro. Depois de um tempo eu comecei a usar lentes de contato, mas eu aprendi a lidar bem com isso. Num teatro, na plateia continua escuro e os bailarinos geralmente olham para o fundo do teatro, não para as pessoas que estão ali. 

Drica - Ótima dica Rafaela, vou guardar essa pra mim também. 
Você é tão jovem e já é uma professora de dança. Como foi o caminho para concretizar esse sonho?

Rafaela - Eu sempre gostei de aprender e com o jazz não foi diferente. Eu vejo os exemplos de dançarinos que eu gosto e tomo aquilo como meta, trabalho naquele aperfeiçoamento. O tempo passou rápido e, quando vi estava formada, dançando o meu primeiro solo. Logo no ano seguinte  eu comecei a dar aulas.

Quando a minha professora me chamou para dar aulas, eu fiquei receosa porque eu não sabia se ia dar certo, mas eu encarei como mais um desafio. Ver a evolução das minhas alunas e saber o que elas passam, porque eu passei também, me deu uma satisfação enorme.

 

Drica - Deve ser emocionante!  O que diria para uma menina ou menino que quer aprender a dançar e se tornar um professor de jazz? Por onde ele deveria começar?

Rafaela - Acho ótimo!  O começo deve ser a parte mais difícil, porque ter certeza do que queremos é algo raro. O importante é começar fazendo as aulas, observando ambientes diferentes, métodos diferentes, estilos diferentes e esperar um tempo para se fazer  seu corpo se acostumar com aquela novidade. Isso leva tempo e paciência.

Reparar no que gosta e no que não gosta em você mesmo, nos alunos e nos professores.  Existem vários cursos que podem ser feitos, inclusive de outras modalidades, que enriquecem o aprendizado. O importante é não ter pressa e aproveitar o máximo que puder de todo o caminho e todas as oportunidades que surgirem sem pensar muito se elas vão dar certo ou não. Uma frase me ajuda muito não só na dança, mas em tudo na vida: "Vai. E se der medo, vai com medo mesmo".


Drica -  Eu tenho a minha coreografia predileta, aquela que não me canso de dançar. Qual a sua coreografia preferida?
 

Rafaela - O solo que eu dancei e algumas partes eu lembro até hoje. Mas o que eu não me canso de dançar é o que o meu corpo me dá. Algumas  vezes, eu coloco uma música para ouvir e vou improvisando no meu quarto mesmo.  É quando eu me sinto mais a vontade e eu não me canso de fazer porque é algo que sai de mim com muita naturalidade por meio dos aprendizados que eu tive durante a vida. É algo terapêutico de uma certa forma. Por vezes, é relaxante, animador ou triste. A que eu não me canso de dançar é a dança que sai de mim no momento.

 

Drica - Que lindo Rafaela! Agora me diz o que é dançar pra você? Uma definição do coração.

Rafaela - Dançar é um refúgio, um lugar para onde fugir, porque em todos os momentos complicados que eu tive na vida, a dança me ajudou, seja dançando ou assistindo.

Drica - Alguns pais acham que a dança pode atrapalhar o horário dos estudos dos filhos. O que você pensa sobre isso?

Rafaela - Muita gente para de fazer aulas de jazz em época de escola e vestibular porque não tem tempo. Eu nunca quis sair e arranjei um jeito de continuar as aulas porque, mesmo cansada, o jazz  era um descanso.


Eu passava 12 horas estudando no colégio e no fim do dia não entrava mais nada na minha cabeça. O jazz me oferecia um ambiente e uma atividade completamente diferente e era incrível porque eu não lembrava de nada além da aula. O meu foco era tão grande, tão desesperador do tipo "eu quero aprender uma coisa diferente do que eu aprendi o dia inteiro" que eu não pensava em uma matéria sequer do colégio. Foram duas horas da minha semana durante o ano inteiro que eu esquecia de tudo aquilo e não me deixaram enlouquecer de estresse e ansiedade. E isso acontece até hoje. Qualquer problema e angústia que eu tenho nunca entraram em sala de aula comigo, porque a dança passa por cima de tudo isso quando você realmente gosta do que você faz.   

Drica - Muito obrigada, Rafaela! Quem sabe um dia vamos marcar para dançar juntas?
 

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